Jesus, senhor da situação

Jesus, senhor da situação

Diante da paixão de Jesus, se posiciona de modo livre e firme…  como eu?

Na narração da Paixão no Evangelho de João, Jesus é sempre senhor da situação.[1] Vejamos alguns momentos.

     Jardim –  Após a Ceia, Jesus vai com os discípulos para um jardim, onde costumava se reunir com eles. Ali se entrega quando quer. Sabe que seus algozes virão. É noite e  eles estão a caminho. Ouve o barulho da turba se aproximando. Ele não foge.

A gente se entregaria ou fugiria aproveitando a escuridão da noite?

     Sai do jardim – Quando Judas chega à entrada do jardim, comandando um batalhão ou coorte (em tese 600 soldados) das legiões romanas, além de funcionários do poder religioso (os sumos sacerdotes), Jesus sai do jardim. Vai ao encontro, como se dissesse: no Jardim os inimigos não entram. É Jesus que se apresenta e se entrega. O seu solene: “Sou eu!” faz os que vieram prendê-lo recuarem e caírem.  Ele decide se entregar ao batalhão, não para se compactuar com eles ou ser um deles, mas exatamente para se posicionar de modo que vejam de perto sua diferença com eles. Ele se entrega, mas coo senhor da situação.

Como enfrento também o batalhão dos que vivem como não cristãos? Sendo também um deles ou exatamente para que afiram de perto a vida que levo segundo os paradigmas da fé que professo?

     Discípulos – Jesus se posiciona diante da legião que veio prendê-lo. Os discípulos não fogem, segundo o Evangelho de João. Jesus é que lhes dá proteção. “Se é a mim que estão procurando, deixem esses aí irem-se embora!”

Eu assumo minha posição de cristão, por convicção, ou  por razões de outros discípulos, como família, tradição?

     Violência – Simão Pedro tenta conter a voracidade da turba, pela violência: corta o lóbulo da orelha direita do servo do sumo sacerdote, ponto da unção sacerdotal (Ex 29,20). Só João traz esse detalhe, assim como o nome desse “servo do sumo sacerdote”, Malco, de malk, mélek, rei.

Com que coragem eu defendo minha fé em Jesus Cristo, diante dos que não a professam devidamente?

     Negativa – A noite já vai adiantada. Pedro está no meio dos que acompanham o julgamento de Jesus. Diante da porteira que parece reconhecê-lo  nega ser discípulo. Gelado de medo, tem de se esquentar ao fogo ao lado dos inimigos de Jesus. Mais duas vezes Pedro nega ser discípulo, em contraposição à firmeza e à segurança de Jesus. Após a segunda vez, como Jesus predissera, o galo canta. Pedro se dá conta da infidelidade predita pelo Mestre.

Diante dos outros, em situações adversas, eu me afirmo como cristão ou prefiro dissimular para não ser motivo de chacotas?

     Atado – Novo ato do paixão que se inicia. Os poderes romano e judaico prendem e amarram Jesus. A  morte dele já estava decidida pelo Sinédrio quando Caifás disse que era preferível um só morrer pelo povo. Jesus está atado, mas está mais livre do que Pedro, que está ali com medo e coagido por uma curiosidade interior. Está também  mais livre do que Anás e seus subalternos, que estão coagidos pelo povo. Jesus não se rebaixa diante de Anás e seus subalternos, nem diante de Pilatos. De mãos atadas, como insiste em dizer o evangelista, está mais livre do que Pilatos que manifestou desejar soltá-lo, mas teve medo do povo.

Eu professo minha fé , preferencialmente entre quatro paredes e entre os demais que crêem, ou tenho coragem de dizer que vivo segundo minha religião, mesmo diante dos que podem me deixar atado pelo esculacho?

    Responde por si  –  Quando Anás interroga Jesus sobre sua doutrina e seus  discípulos, ele se posiciona de forma destemida. Em relação aos discípulos, se cala,  não  os dedura. Sobre sua doutrina, manda que pergunte a quem a ouviu – não é ele que deve se justificar ou se acusar. Ao subalterno que o esbofeteia, pergunta: Se errei, diga onde foi; se falei certo, por que me bate? Será para bajular o chefe?

Minha vida trai o que professo ou os outros podem saber no que acredito, pelo modo como vivo?

     Indecisão – Pilatos fica, então, para dentro e para fora, como um joguete nas mãos do povo. Dentro, no âmbito do julgamento,  ele conversa com Jesus (“Tu é o rei dos Judeus?”) e fora, diante do povo, conversa com os “judeus” (“Devo crucificar o vosso rei?”). O poder de Pilatos (“Não sabes que tenho poder para te soltar e para te crucificar?”) é questionado por Jesus: “Não terias nenhuma autoridade se não te tivesse sido dada de cima; quem me entregou a ti tem pecado maior”. Literalmente (Jo 19,4-5): “Pilatos disse-lhes (ao povo): ‘Vejam que eu o trago para fora para que vocês fiquem sabendo que não encontro nele nenhum indício’. Jesus sai para fora portando a coroa de espinhos e o manto vermelho. Pilatos diz:‘Eis o homem!’”

Estando em situações parecidas hoje, em que alguém estivesse tentando me livrar de uma enrascada por motivos de fé, será que eu não procuraria  uma desculpa para transigir, fazer concessões, encontrar um jeitinho brasileiro para me livrar de embaraços lancinantes?

     Cruz – Depois do meio-dia, Pilatos decide crucificar Jesus. O Cordeiro Pascal deve ser morto na parte da tarde. Os judeus entregaram Jesus a Pilatos, agora Pilatos lhes entrega Jesus para que seja crucificado. No evangelho de João não há  Cireneu. Jesus sai carregando ele mesmo a cruz que será sua.

Eu também carrego resignadamente a minha na qual também me crucifico no dia a dia?

     Maria e João – No princípio dos sinais de Jesus, nas bodas de Caná, já lá estavam Maria e João, mas ainda não tinham muito a ver um com o outro. Agora, sim, na hora de Jesus, os dois devem se acolher como mãe e filho.

Já acolhi Maria em minha vida?

Sede  – “Tenho sede.” Oferecem a Jesus vinagre. A sede foi respondida com o vinagre do ódio gratuito. Em seguida, Jesus “Inclinou a cabeça e comunicou o espírito” (19,30). E Jesus é sepultado provisoriamente no Jardim.

Como respondo à sede que Jesus tem de me salvar? Com vinagre em sua boca?

Enfim, na narração da paixão, feita no Evangelho de João, Jesus é sempre senhor da situação. Em matéria de fé eu também sou senhor da situação, ou estou mais para Pedro, antes que o galo cante?



[1] Reflexão baseada no artigo do padre José Luiz Gonzaga do Prado, publicada na  Revista Vida Pastoral, de março e abril de 2012, p. 53 e seg,, da  Editora Paulus.