Pão como força no caminho

Pão como força no caminho

Renunciar à frivolidade

Com é difícil renunciar ao prazer, não é? E ainda vem São Paulo dizer: “Renunciai à vida passada, despojai-vos do homem velho, corrompido pelas concupiscências enganadoras” (Ef 4,22). É uma tarefa hercúlea! Mas, certamente será necessário contar com a força do pão espiritual.

Prazer. Não é fácil renunciar a algo prazeroso, especialmente prazeres dos quais nem nos damos conta, como, por exemplo, gostar de exercer o poder sobre outras pessoas, sentir prazer em conseguir valer alguma coisa perante os outros, gostar de fazer só o que dá prazer, não importando se é eticamente aceitável ou não. Enfim, o prazer é algo poderoso e instintivo. Contudo, nem sempre é lícito ou faz bem para si e para os outros. Por isso  São Paulo exorta: “Renovai sem cessar o sentimento da vossa alma” (Ef 4,23). Isso ele procurou fazer. “Nós também, outrora, éramos sem conhecimento, rebeldes, desorientados, servindo a várias paixões e prazeres, vivendo na maldade e na inveja, odiosos e odiando-nos uns aos outros” (Tt 3,3). Ele sabia de nossas tendências egoístas. Seguindo-as nos afastamos dos caminhos do Senhor.

Murmúrio. Facilmente lamentamos pelo que não temos, como os israelitas no deserto. Lembra a revolta deles contra Deus, na caminhada depois que foram libertados do Egito? No começo, tudo bem: estavam sendo libertados de uma escravidão.  Nada mais euforizante. Mas, com o passar dos anos de caminhada rumo à Terra Prometida, ficou difícil. Aí bateu a saudade da comida, em troca da qual trabalhavam como escravos: “Toda a assembléia dos israelitas pôs-se a murmurar contra Moisés e Aarão no deserto. Disseram-lhes: “Oxalá tivéssemos sido mortos pela mão do Senhor no Egito, quando nos assentávamos diante das panelas de carne e tínhamos pão em abundância! Vós nos conduzistes a este deserto, para matardes de fome toda esta multidão” (Ex 16,2-3). De fato, quem não fica bravo quando se está com fome! Mas, e aquele tempo em que os israelitas passaram amargurando as durezas da escravidão, era bom? Ter escapado dele já não valia o sacrifício que estavam passando?  Hoje também murmuramos. Como reajo diante dos pequenos sacrifícios que tenho que passar em minha vida?

Fartura. O Senhor não se zangou. Compadeceu-se do povo. Ele compreende também hoje do que somos feitos. “De fato, não temos um sumo sacerdote incapaz de se compadecer de nossas fraquezas, pois ele mesmo foi provado em tudo, à nossa semelhança, sem todavia pecar” (Hb 4,15). Que fez Deus em relação aos israelitas insatisfeitos com a caminhada pelo deserto? Providenciou o alimento. “Os israelitas comeram maná durante quarenta anos, até entrarem em terra habitada” (Ex 16,35). Também hoje, os que procuram viver segundo os mandamentos do Senhor se sentem, por vezes, tentados a viver segundo os que não têm este compromisso. Parece que estes últimos vivem melhor: têm o que querem, progridem na vida, desfrutam de bens e poderes, fazem inveja. Não é o que acontece?  Aí esses quase-resignados a Deus, se revoltam contra  ele: “Senhor, por que os infiéis que não procuram ser bons, crescem tanto na vida, e eu que procuro ser fiel, vivo sempre na penúria? Vale a pena eu continuar nessa fé?” Um cobrança comum.

Pão material. Não raro cobramos milagre de Deus para continuarmos a acreditar nele. Queremos pão. O pão de algum lucro, de bens materiais, de algo que  sacie a fome de bem-estar. Já se sentiu dessa forma? O Senhor responde a estes chorosos: “Em verdade, em verdade vos digo: buscais-me, não porque vistes os milagres, mas porque comestes dos pães e ficastes fartos” (Jo 6, 26). De fato, exigimos a fartura dos ímpios. Sem o pão de algum lucro aqui na terra, o povo do Senhor acha difícil continuar caminhando com fidelidade no  deserto da vida.

Pão espiritual.    Mas, para a fome de abundância material e prazer humano, o Senhor tem pouco a oferecer. Indica um pão diferente. Um pão que ajuda o faminto a superar a fixação apenas na dimensão material da vida. Abre os olhos para a dimensão espiritual:  “Eu sou o pão da vida: aquele que vem a mim não terá fome, e aquele que crê em mim jamais terá sede” (Jo 6,35). De que fome ele está falando? Você sabe: daquela fome insaciável de bem-estar que todos sofremos! Ele não fala do pão que leva à morte, mas do outro. “Eu sou o pão da vida. 49 Os vossos pais comeram o maná no deserto e, no entanto, morreram. 50 Aqui está o pão que desce do céu, para que não morra quem dele comer” (Jo 6,48). Porém este pão tem um preço: requer o afastamento das frivolidades. Ah, que preço! Sim, quem come apenas dos bens materiais ou sonha apenas com os prazeres humanos, volta a ter fome, até o último instante de vida, pois só um pão mata nossa fome de felicidade: o pão espiritual.

É necessário, pois, com a força deste pão, cada um desfrutar desta vida, sem se apegar às coisas do “homem velho”, às frivolidades,  mas buscando sempre “as coisas do alto” (Cl 3,1). Por que razão? Porque “lá a vossa vida está escondida com Cristo em Deus” (Cl 3,3). Na posse das coisas do alto reside a felicidade plena que sonhamos. O resto…  é resto,  passa.

Eu, diante da Palavra

Pão do céu
32 Jesus respondeu-lhes: Em verdade, em verdade vos digo: Moisés não vos deu o pão do céu, mas o meu Pai é quem vos dá o verdadeiro pão do céu (Jo 6,32)

Como me relaciono com o verdadeiro pão do céu?

Maná
“31 Nossos pais comeram o maná no deserto, segundo o que está escrito: Deu-lhes de comer o pão vindo do céu (Jo 6,31).

Qual o maná que Deus lhe concede todos os dias?

Comércio
26 Respondeu-lhes Jesus: Em verdade, em verdade vos digo: buscais-me, não porque vistes os milagres, mas porque comestes dos pães e ficastes fartos (Jo 6, 26).

Busco a Deus pelos bens materiais ou porque Deus é Deus, independentemente do que eu ganhe de materialmente?

Murmúrio:
3 Disseram-lhes: “Oxalá tivéssemos sido mortos pela mão do Senhor no Egito, quando nos assentávamos diante das panelas de carne e tínhamos pão em abundância! Vós nos conduzistes a este deserto, para matardes de fome toda esta multidão.” (Ex 16,3).

Frivolidade
17 Portanto, eis o que digo e conjuro no Senhor: não persistais em viver como os pagãos, que andam à mercê de suas idéias frívolas. (Ef 4,17)

Em que frivolidades vivo hoje?

Mudança
23 Renovai sem cessar o sentimento da vossa alma,
24 e revesti-vos do homem novo, criado à imagem de Deus, em verdadeira justiça e santidade” (Ef 4,23-24).

Tenho-me  revestido dessas virtudes?

Renunciar á vida passada
22 Renunciai à vida passada, despojai-vos do homem velho, corrompido pelas concupiscências enganadoras (Ef 4,22).

Até que ponto tenho renunciado à vida de paixões enganadoras?

 Minha prece

Senhor, ordenaste às nuvens dos céus
e as comportas das alturas que se abrissem.
Fizeste chover o maná e alimentaste teu povo.
Hoje coloca-nos à disposição o pão do céu.
O ser humano pode se nutrir do pão dos anjos.
Alimentados com o pão da vida, conduze-nos à terra prometida,
onde nossa felicidade será para sempre.
Assim seja.