“Dai-lhes de comer”

“Dai-lhes de comer”

“Dai-lhes de comer”

Que significa dar de comer? Significa atender a uma necessidade básica das pessoas. O amor não dá os ombros às necessidades dos outros. “Mas, dar de comer a todos?”  Talvez. Contudo há um mínimo a se fazer, como nas primeiras comunidades cristãs. Ali se repartia o alimento.

     Em ação de graças. Eucaristia significa ação de graças. “Bendito seja Abrão pelo Deus Altíssimo, que criou o céu e terra! Gn 14,19).  Ali se repartia o pão em gratidão pelo que se recebeu. Nas comunidades primitivas, a Ceia do Senhor era feita em uma cerimônia de ação de graças (= eucaristia). Agradeciam o que, além do próprio alimento? A oportunidade de redenção do gênero humano trazida por Jesus. O momento principal era precedido por uma refeição comum, também chamada de “ágape”. Ali se expressava o companheirismo entre os membros da comunidade. A comida, provavelmente, era trazida de casa e partilhada com todos.[1]

     Comunhão. Entretanto, lá também haviam os mais afoitos. No caso de Corinto, Paulo critica com veemência a atitude dos que chegavam mais cedo, comiam e bebiam à vontade, sem esperar pelos outros. É como acontece muitas vezes em nossas refeições, não? Essa conduta está em total desacordo com o sentido sagrado e solene da eucaristia. A celebração não é mero simbolismo, mas expressão de comunhão. “Uma vez que há um único pão, nós, embora sendo muitos, formamos um só corpo, porque todos nós comungamos do mesmo pão” (2Cor 10,17). Aqui uma curiosidade:  O relato de Paulo a respeito da Ceia de Jesus é anterior aos evangelhos. Foi redigido ao redor do ano 56. Observou, então, como o banquete de ação de graças precisa ser banquete de comunhão, de espera uns pelos outros, em todos os sentidos?

Despedir? Os doze se aproximaram do Senhor e lhe pediram que despedisse a multidão para que ela pudesse  comprar alimentos e providenciar pousada.  Não é o que sugeriríamos também?  Os discípulos se comportaram como um grupo de elite que procura livrar-se do “incômodo” das pessoas necessitadas. Apontaram uma saída baseada no individualismo e numa ótica mercantilista. Uma saída muito atual, infelizmente!

     Acolhimento. Jesus podia ter dispensado a multidão que o acompanhou durante o dia para ouvi-lo. Mas não o fez. Estavam num lugar deserto. A noite vinha chegando. Certamente pensou Jesus: Que fazer com este povo que está com fome? A postura de Jesus revela-se em desacordo com o exclusivismo dos Doze. Ele  é da acolhida. O que  faz? Impele os discípulos a enfrentar a situação: “Dai-lhes vós mesmos de comer”. Que surpresa não causou a eles, hein! Ensina-lhes o método antigo de organização em pequenos grupos e de partilha do que as pessoas têm.  Fez o mesmo que o profeta Eliseu: ainda que diante da dúvida resistente de seu servo, pede que sejam servidos para cem pessoas os 20 pães que possuía. Todas ficaram saciadas e ainda sobrou (2Rs 4,42-44). Aconteceu com Eliseu e Jesus faz algo parecido.

Serviram alimento. Lucas insiste em precisar a quantidade de alimento que havia no meio do povo: cinco pães e dois peixes. (Perfazem o número sete,  que significa plenitude). Jesus abençoa os pães. A bênção dele sobre os alimentos revela o costume entre os judeus. “Jesus tomou os pães e rendeu graças. Em seguida, distribuiu-os às pessoas que estavam sentadas, e igualmente dos peixes lhes deu quanto queriam” (Jo 6,11). As palavras usadas por Jesus nessa bênção, juntamente com o gesto de partilha, faziam parte da Ceia do Senhor, celebrada pelas comunidades primitivas. Finalmente, o pouco alimento que se tem, é repartido. Como hoje? Nem tanto em nossos dias.

      Era uma multidão. Havia quase cinco mil homens, narra o Evangelho, fora, portanto, mulheres e crianças. Jesus disse aos discípulos: “Mandai-os sentar, divididos em grupos de cinqüenta.  15 Assim o fizeram e todos se assentaram. 16 Então Jesus tomou os cinco pães e os dois peixes, levantou os olhos ao céu, abençoou-os, partiu-os e deu-os a seus discípulos, para que os servissem ao povo. 17 E todos comeram e ficaram fartos. Do que sobrou recolheram ainda doze cestos de pedaços”   (Lc 9,17). A partilha  venceu o egoísmo. A celebração eucarística não pode ser diferente.

A celebração da eucaristia, em nossos dias,  adquire seu verdadeiro sentido quando é expressão de relacionamentos vividos de modo justos e fraternos. Expressos onde? No cotidiano, no trabalho, na família, na escola, com os desconhecidos.  Não é, portanto, especialmente por meio de manifestações triunfalistas que expressamos a  fé e o louvor a Deus. É pela partilha do pão, do afeto, da compreensão, do atendimento às necessidades dos outros, da atenção, como fez Jesus.

Isto é dar de comer a quem tem fome: é repartir o pão nos seus mais diversos sentidos.

Eu, diante da Palavra:

Todos comeram
17 E todos comeram e ficaram fartos. Do que sobrou recolheram ainda doze cestos de pedaços (Lc 9,17)

Alimento-me da eucaristia com frequência?

Até que ele venha
26 Assim, todas as vezes que comeis desse pão e bebeis desse cálice lembrais a morte do Senhor, até que venha  (1Cor 11,26).

Quando participa da celebração eucarística, lembro da morte do Senhor até que ele venha?

Pão e vinho
18 Melquisedeque, rei de Salém e sacerdote do Deus Altíssimo, mandou trazer pão e vinho,
19 e abençoou Abrão, dizendo: “Bendito seja Abrão pelo Deus Altíssimo, que criou o céu e terra!
 (Gn 14,18-19).

Bendigo a Deus criador, como Melquisedec, por tantas coisas que ele me dá?

Minha prece


Senhor, tu pões nosso inimigos debaixo dos  pés!
Que a Eucaristia seja nossa força e alimento para cada dia.
Celebrando tua memória até que voltes,
participamos do teu sacrifício
e participamos do banquete celeste.
Fortalece-nos, Senhor, com teu corpo e teu sangue.
Assim seja.

 


[1] Celso Loraschi, no roteiro homilético publicado na Revista Vida Pastoral, nº 272, São Paulo: Paulus, p. 51-54.