Fé por tradição e por revelação

Fé por tradição e por revelação

Fé por tradição e por revelação

Muita gente muda de religião. Por quais motivos?  Desde os mais banais até pelos mais sérios. No fundo, fica a pergunta: será por que não encontraram respostas para suas indagações?  Por outro lado, de quem depende o encontro das respostas da fé?  Depende de Deus? Da própria pessoa? Dos outros?

Possivelmente depende mais dos ouvidos humanos do que da palavra de Deus. Quer dizer: Depende mais da pessoa buscar a Palavra e vivê-la do que de outro motivo.  Não adianta buscar um lugar onde possa ouvir pregações diferentes, humanamente mais cômodas e atraentes. Essa tentação já existia no tempo dos primeiros cristãos.

Na Galácia.  Paulo  exprime vigorosamente, na Carta aos gálatas, o seu espanto pelo fato deles se terem desviado da fé a que Deus os tinha chamado. O que faz Paulo, então?

Profundamente indignado lança uma maldição sobre quem quer que ouse pregar evangelho diferente daquele que ele pregou. Que indignação, hein! Veja só: Como vô-lo dissemos, volto a dizê-lo: Se alguém vos anunciar um evangelho diferente daquele que recebestes, seja anátema (Gl 1,8). Também hoje esses pegadores terão êxito, se houver quem lhes dê ouvidos. A que pregadores você costuma ouvir? Os que ensinam como ganhar dinheiro? Os que pregam a liberdade sexual, o aborto? Os que ensinam que religião é para ingênuos? Para todos estes gostos há pregadores. Porém, ensinam com que autoridade?

Credencial. Uma das principais acusações lançadas contra Paulo[1] dizia que ele não era um verdadeiro apóstolo, pois não tinha recebido a missão diretamente de Cristo, como os outros. Que acusação forte para Paulo! Todavia, ele não foge à alfinetada. Em resposta reafirma que não recebeu o seu Evangelho dos homens, por tradição, mas que o recebeu imediatamente de Jesus Cristo, por revelação. Pela graça de Deus, sou o que sou, e a graça que ele me deu não tem sido inútil. Ao contrário, tenho trabalhado mais do que todos eles; não eu, mas a graça de Deus que está comigo (1Cor 15,10).  Sua credencial: O próprio Cristo lhe revelou a verdade e os principais mistérios da religião cristã. Poucos podem garantir esse vínculo imediato com Deus. Alguém de nós pode?

Tradição. A maioria de nós recebeu a fé por tradição. As verdades foram recebidas e passadas de geração em geração; Paulo recebeu por revelação. Qual o problema em se ter recebido por tradição e não por revelação? Que para muitos de nós, a fé ficou apenas como uma tradição recebida. Não foi assumida como opção pessoal. Deixando o mandamento de Deus, vos apegais à tradição dos homens  (Mc 7,8). Aqui, uma consequência triste: esta fé apenas de nome, não agrada a Deus.

Opção pessoal. Agrada ao Senhor uma fé sincera como a do centurião, que não pertencia ao povo de Deus, Israel, mas mereceu elogio de Jesus:  «Digo-vos que nem mesmo em Israel encontrei tão grande fé» (Lc 7,10). Agrada  ainda ao Senhor a prece daquele que não é religioso, mas procura a casa de Deus, como atestou Salomão: Quando um estrangeiro, embora não pertença ao vosso povo, Israel, vier aqui dum país distante por causa do vosso nome…  quando vier orar neste templo, escutai-o do alto do Céu, onde habitais, e atendei os seus pedidos  (1Rs 8,41-43). O centurião e estes por quem Salomão rezou, tinham algo em comum: procuraram o Senhor, por opção. Você procura? A nós, cabe transformar a recepção da fé por tradição, numa fé aceita por opção, como algo incorporado a nossa vida. É muito diferente.  O seguimento a Cristo é decisão pessoal, como fizeram os apóstolos. Não pode ocorrer por imposição dos outros.

A quem agradar?  Àquele que é razão da fé. Vivendo segundo a boa nova assumida por decisão pessoal, não se viverá pensando em agradar aos outros. Se eu ainda pretendesse agradar aos homens, não seria servo de Cristo  (Gl 1,10). O seguidor de Jesus sabe por qual razão se tornou seu discípulo. Você sabe? É decisivo responder a esta pergunta.

O ponto de partida é fora de questão: assumir o seguimento a Jesus. É essencial. Depois, vêm as consequências. Não importa se nossa opção por Jesus seja feita por revelação, como Paulo, ou por tradição recebida dos pais ou dos educadores da fé, como quase todos nós. Importa a vida segundo a fé. Não importa a eloquência dos pregadores, importa que sejam fiéis à doutrina do Senhor. É o que se espera de cada cristão.

 

Eu, diante da Palavra

Atender o pedido
Salomão orou a Deus dizendo:
Quando um estrangeiro, embora não pertença ao vosso povo, Israel,
vier aqui dum país distante por causa do vosso nome
(…)
quando vier orar neste templo, escutai-o do alto do Céu, onde habitais, e atendei os seus pedidos  (1Rs 8,41-43)

Eu vou ao templo por causa do nome de Deus, mesmo que não sinta vontade?

A grande
Digo-vos que nem mesmo em Israel encontrei tão grande (Lc 7,10).

Deus pode dizer o mesmo de minha fé?

 Minha prece

Senhor, guardai-me na vossa Palavra.
Não quero me desviar dela.
Quero viver segundo a boa nova recebida de Jesus
E pregada pelos apóstolos.
Tenho certeza que caminhando segundo esses passos,
Vossa bondade estará sempre comigo.
Protegei-me, Senhor, contra os desvios da minha fé,
Amém.

 


[1]   Veja anotações da Bíblia Sagrada do Pontifício Instituto Bíblico de Roma, São Paulo: Paulinas, 1967, em Gálatas 1,6 a 12.