A difícil missão do profeta

A difícil missão do profeta

A difícil missão do profeta

Ser profeta não foi missão apenas de alguns que viveram antes de Jesus. Ser profeta, no sentido de anunciar um novo reino, é missão de todo batizado. Já sabe quanto esta missão é difícil, não? É só pensar como é difícil fazer o bem aos que nos fazem o mal, participar ativamente da comunidade católica, não guardar mágoa, perdoar os que nos ofendem.

Custa sangue. Certamente ninguém de nós fez esforço suficiente para sermos vencedores nesta luta. Desculpe, você já fez? São Paulo adverte que não:  “Vós ainda não resististes até ao sangue, na vossa luta contra o pecado”  (Hb 12,4).  Está aí. Ainda não resististes até o sangue! Então… não há dúvida. Poucos se dão ao trabalho de dar testemunho de fé com muito afinco, até o sangue. Sabe por quê?

Não é fácil ser profeta. Não é e nunca foi. A primeira leitura nos mostra hoje o exemplo de Jeremias. Ele recebeu de Deus uma missão que iria trazer contra ele o ódio dos chefes políticos e a desconfiança do povo de Jerusalém. E aconteceu. Acabou sendo jogado na cisterna. Ó rei, meu senhor, esses homens procederam muito maltratando assim o profeta Jeremias: meteram-no na cisterna, onde vai morrer de fome,pois já não há pão na cidade” (Jr 38,9).  Ao menos alguém se compadeceu dele! Por que fizeram essa maldade com ele? Porque ele anunciou que o reino de Jerusalém estava no fim. Quem gosta de ouvir que sua nação irá se acabar, que será invadida, não é mesmo? No entanto, Jeremias se lançou nesse absurdo.  Ele sabia que anunciar esta verdade seria contrariar os interesses do governo e do povo. Mas sabia também que sua missão profética era perigosa e difícil, mas não podia desanimar. E não desanimou. Cumpriu-a, doesse a quem doesse. Que dizermos da nossa conivência e até participação em atitudes injustas hoje, hein! Não é fácil ser profeta também hoje.

O Anúncio de Jeremias.  Que coisa ruim fez Jeremias? Nada. Apenas anunciou que o reino de Jerusalém teria fim. Isto aconteceria porque, após o reinado de Josias, morto em 609 a.C. em combate contra os egípcios, viriam reis medíocres, que fariam alianças pouco consistentes com as potências da época. Com este procedimento estavam cavando a ruína de Jerusalém, da nação do povo de Deus. E aconteceu o que Jeremias predisse? De fato, não tardou e a profecia de Jeremias se realizou. Nabucodonosor pôs cerco a Jerusalém. Jeremias apressou-se a avisar que o cerco iria recomeçar em condições ainda mais duras. Por isso, convencido de que tinha chegado o castigo para o pecado de Judá e de que Deus iria entregar o reino de Jerusalém nas mãos dos babilônios, aconselhou ao povo e aos soldados a não resistirem aos invasores e a se renderem. Que anúncio o de Jeremias! Para os poderosos era deslavada conspiração. “Esse Jeremias deve morrer porque semeia o desânimo entre os combatentes que ficaram na cidade e também todo o povo com as palavras que diz.” (Jr 38,4).  Isso enfureceu os detentores do poder. Mas, de fato, eles perderam. Em 586 a. C. Nabucodonosor tomou  definitivamente Jerusalém. Houve mortes. Os que sobreviveram do povo de Deus foram deportados para a Babilônia. Hoje faltam profetas corajosos como Jeremias. Diante dos desmandos e injustiças, os cristãos de hoje têm a coragem de Jeremias para testemunhar os valores do reino de Deus? Muito poucos.

Divisão. No Evangelho ouvimos que a missão de Jesus era árdua, mais do que a de Jeremias. Jesus veio anunciar uma forma de vida que seria tão diferente daquela vivida em seu tempo, que seria semelhante  a “lançar fogo à terra”. Claro, o fogo do novo reino veio ser lançado por Jesus a fim de que desapareçam as ervas daninhas do egoísmo, da escravidão, do pecado e nasça o “Reino”. “Pensais que eu vim trazer a paz à terra? Pelo contrário, eu vos digo, vim trazer a divisão” (Lc 12,51). De fato, Jesus divide as pessoas em a favor dele e contra ele.  A proposta de Jesus traz  divisão, porque é radical. Provoca oposição de muitos, até divisão nas famílias. Mas, como Jeremias, Jesus também aceita ser vítima de sua proposta. Enfrenta a morte, para que seja lançada junto com seu sangue a semente de um mundo novo. “Tenho de receber um batismo e estou ansioso até que ele se realize”  (Lc 12,50). Uma pressa quase inconcebível paa quem sabia de que morte haveria de morrer.
Vivemos nosso batismo em nosso trabalho, em nossa família?  Jesus e Jeremias deram testemunho no meio de um mundo hostil a eles. E nós?  Que testemunho damos?

Desânimo. Muitos cristãos são passivos, acomodados.  Você não? A carta de São Paulo é dirigida a cristãos expostos ao desalento e ao desânimo na sua fé e na sua vida cristã. São muitos os cristãos sem entusiasmo com a vida cristã, instalados no comodismo e na mediocridade. Além disto estão cercados e, por vezes, até envolvidos com  doutrinas estranhas e pouco consentâneas com a fé recebida dos apóstolos. Libertemo-nos de todo o impedimento e do pecado que nos cerca”  (Hb 12,1). Esse texto é um apelo aos cristãos para que se empenhem na fé fé e na constância.  São convidados a se espelharem em Cristo. Em que sentido? Ele poderia abrir mão de sua missão. “Este homem não procura o bem do povo, mas a sua perdição” (Jr 38,4).  Contudo, os profetas renunciaram a um caminho de facilidade e de triunfo humano. Jesus também. Enfrentou a cruz e venceu a morte. O resultado? Foi exaltado e “sentou-se à direita do trono de Deus”.  Desanimamos com as dificuldades ou enfrentamos as durezas da fidelidade à mensagem de Jesus?

Pedagogia do sofrimento.  É preciso entender a missão que Deus nos confia e persistir apesar dos sofrimentos. “Pensai pois naquele que enfrentou uma tal oposição por parte dos pecadores, para que não vos deixeis abater pelo desânimo. A pedagogia do sofrimento” (Hb 12, 3). É o que acontecerá com os discípulos que fizerem o mesmo. Ele mostrou aos crentes como proceder. E então? Seu exemplo estimula você continuamente a enfrentar as dificuldades na vida cristã  na caminhada em direção à vitória?

A caminho de Jerusalém. Jesus estava a caminho de Jerusalém e da cruz, quando ensinou  aos discípulos que não veio trazer a paz, mas a divisão. “Pensais que Eu vim estabelecer a paz na terra?Não. Eu vos digo que vim trazer a divisão” (Lc 12,51). Que coragem, às vésperas do sofrimento! Sim, mais um pouco e ele deixaria os discípulos atônitos com a divisão que  provocaria entre Pilatos, a corte e o povo. Ele traria a divisão em seu julgamento, mas estaria desempenhando com a cabeça erguida a missão que o Pai lhe confiou. Os discípulos também seriam causa de divisão? Sim. A mensagem de Jesus causará sofrimentos também aos seus os discípulos. Importa não se desviarem do caminho de Jerusalém! De qual Jerusalém? Da Jerusalém celeste!

Fogo. O símbolo do fogo deve ser entendido neste enquadramento, que  Jesus veio revelar aos homens a santidade de Deus. “Fogo eu vim lançar sobre a terra, e como gostaria que já estivesse aceso! (Lc 12, 49). Sua proposta, como o fogo que a tudo devora com suas chamas, destina-se a destruir o mundo velho do egoísmo, da injustiça, da opressão que aniquila as pessoas. Das cinzas deste mundo perverso deve surgir o mundo novo de amor, de partilha, de fraternidade, de justiça. Como é que isso vai acontecer? Através da Palavra e da ação de Jesus e dos cristãos que receberão a força do Espírito Santo, representado também com a imagem de línguas de fogo.  Neste contexto, o fogo purificador de Jesus já atingiu seu coração? Sente que está contribuindo para incendiar com seu bom exemplo a máquina da injustiça que só faz mal à sociedade?

Para sermos profetas é preciso coragem. Libertemo-nos de todo o impedimento e do pecado que nos cerca”  (Hb 12,1). A partir daí, poderemos dar testemunho do novo reino anunciado por Jeremias e sobretudo por Jesus Cristo. O caminho? Aquele trilhado por Jesus: Renunciando à alegria que tinha ao seu alcance,Ele suportou a cruz, desprezando a sua ignomínia, e está sentado à direita do trono de Deus”  (Hb 12,2). Então, nos restar caminhar.

Fixando os olhos no Mestre, conseguiremos desempenhar a difícil  missão de ser profeta.

 

Eu diante da Palavra

Semeia desânimo
“Naqueles dias,
os ministros disseram ao rei de Judá:
“Esse Jeremias deve morrer,
porque semeia o desânimo entre os combatentes
que ficaram na cidade e também todo o povo
com as palavras que diz.” (Jr 38,4).

Semeio desânimo entre as pessoas com quem convivo?

Não procuro o bem do povo
Este homem não procura o bem do povo, 
mas a sua perdição” (Jr 38,4).

Procuro o bem das pessoas que convivem comigo ou antes procuro o meu próprio bem-estar?

 

Procederam mal
Ó rei, meu senhor, esses homens procederam muito mal
tratando assim o profeta Jeremias:
meteram-no na cisterna, onde vai morrer de fome,
pois já não há pão na cidade” (Jr 38,9).

Tenho atitudes más para com os outros, como colocar pessoas na cisterna da indiferença, da exclusão, do trato com rispidez?

 

Trazer divisão
“Pensais que Eu vim estabelecer a paz na terra?
Não. Eu vos digo que vim trazer a divisão” (Lc 12,51).

Instalo a divisão, como Jesus, por fazer o bem entre os que fazem o mal? Por agir diferente dos corruptos ou maldosos?

 

Receber um batismo.
“Tenho de receber um batismo
e estou ansioso até que ele se realize”  (Lc 12,50).

Procuro viver o meu batismo, de modo a me identificar com Jesus Cristo?  Que atitudes demonstram este meu esforço?

 

Libertemo-nos do pecado que nos cerca
Libertemo-nos de todo o impedimento e do pecado que nos cerca”  (Hb 12,1).

Procuro me libertar de minhas condutas contrárias ao pensamento de Jesus?

 

Recusando à alegria ao seu alcance
Renunciando à alegria que tinha ao seu alcance,
Ele suportou a cruz, desprezando a sua ignomínia,
e está sentado à direita do trono de Deus”  (Hb 12,2).

Como fez Jesus Cristo, abro mão de meus projetos e desejos pessoais para que prevaleçam em mim as condutas coerentes com a vontade de Deus?

 

Pedagogia do sofrimento
“3 Pensai pois naquele que enfrentou uma tal
oposição por parte dos pecadores, para que não vos deixeis abater pelo desânimo. A
pedagogia do sofrimento” (Hb 12, 3).

Tenho conseguido me manter fiel à vontade de Deus, em meio à pedagogia do sofrimento?

Resistir até o sangue
“4 Vós ainda não resististes até ao sangue, na vossa luta contra o
pecado”  (Hb 12,4).

Que me falta fazer para dizer que já resisti ao mal com todas as minhas possibilidades?

Minha prece

Senhor, quero exercer minha missão de ser profeta.
Confio em tua força e sei que me ajudarás.
Vivo no lodo das minhas incoerências,
no abismo da distância dos teus mandamentos.
Quero mudar, Senhor.
Quero assentar meus pés sobre a rocha dos teus mandamentos
e firmar meus passos em teus caminhos.
Põe em meus lábios tuas palavras,
e na minha conduta tuas ações.
Sou fraco. Cuida de mim. Restabelece minhas forças.
És meu protetor e meu libertador.
Quero dar testemunho de tua vontade.
Conto com tua força, Senhor.